
Serão apreciados os processos de 15 mulheres que foram perseguidas politicamente durante o regime militar (1964-1985). O julgamento
acontecerá a partir das 10 horas, na sala 304 do Ministério da Justiça.
Será a terceira vez que a comissão promoverá sessão de
homenagem às mulheres na data. Em 2007 e 2008, 24 brasileiras vítimas da ditadura tiveram seus requerimentos analisados pelo órgão em comemoração ao Dia
Internacional da Mulher.
As homenagens fazem parte de uma sessão especial de julgamento da Comissão de Anistia que, desde 2007, tem como propósito democratizar o
acesso às informações e contribuir para a formação cultural, humana e política da sociedade brasileira. A sessão da próxima segunda-feira
será presidida pela vice-presidente da Comissão, Sueli Belato.
Processos que serão julgados:
Maria Cândida Raizer Cardinalli Perez
- Ex-esposa de Luiz Henrique Perez (militante estudantil e ex-preso político), é engenheira agrônoma formada pela USP. Foi demitida da Fundação IPARDES, no
Paraná, no final em 1977 em função do nome de seu ex-esposo constar de lista do Serviço Nacional de Informações (SNI) como um dos 97 comunistas
ocupantes de cargos público em esfera federal ou estadual.
Isa Mariano Macedo – Estudante e militante junto ao Diretório Acadêmico da Faculdade de Belas Artes
da UFRJ, foi presa em fevereiro de 1970. Ficou detida 50 dias no DOI-CODI, onde sofreu tortura física e psicológica. Transferida para o Presídio São Judas Tadeu,
também no Rio, foi solta tempos depois em função das torturas que sofreu.
Maria Beatriz de Albuquerque David - Militante ativa, foi presa, pela primeira vez, em
1968, em sua residência, em XXX, enquanto dormia. Atingida pelo decreto 477/69, foi impedida de estudar no Brasil e compelida ao afastamento da atividade que desempenhava junto ao
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Refugiada no Chile, foi presa no Estádio Nacional do Chile, após o golpe que destitui o presidente, Salvador Allende, em
1973. Asilou-se na Suécia, onde permaneceu até fevereiro de 1979, quando retornou ao Brasil – foi presa pela Polícia Federal após desembarcar com seu filho, de
11 meses. Somente depois de prestar longo depoimento foi liberada.
Maria da Glória Lung – Estudante de psicologia na UFRJ e professora, era militante estudantil e
integrante da organização política clandestina Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Detida em 1970, foi denunciada em processo da 2ª Auditoria da
Aeronáutica. A anistianda afirma que diante da situação, e após muita pressão e ameaças, foi aconselhada a pedir exoneração para que
não tivesse sua vida profissional “maculada por uma demissão por justa causa”.
Denise Fraenkel Kose – Foi detida em setembro de 1969, quando era
professora estadual em São Paulo e casada com Renato Hermann Fraenkel, militante da ALN – ele havia sido preso no XXX Congresso da UNE, em 1968, em Ibiúna. Denise viveu fora
do país nos anos 1970 em função das perseguições políticas. Seu nome constava de lista do governo que citava os brasileiros exilados, refugiados,
foragidos ou banidos do país. É filha de Joaquim Câmara Ferreira, que pertenceu ao Comando Nacional da ALN e foi preso em São Paulo em 23 de outubro de 1970 e morto
sob torturas no mesmo dia.
Vera Lúcia Marão Sandroni – Presa em 1968, quando era estudante da Escola de Comunicações Sociais da USP, por também
ter participado do XXX Congresso da UNE, em Ibiúna. Foi indiciada em inquérito policial militar. Também teve que sair do país. Era monitorada pela Agência
Brasileira de Inteligência (Abin) e pela Polícia Federal.
Elizabel Maria da Paixão Couto – É filha de Francisco Raimundo da Paixão, anistiado
pela Comissão de Anistia, e de Edna Maria da Paixão. Ambos militavam junto ao PCB em Governador Valadares (MG). Com o golpe militar de 1964, houve um cerco à entidade de
representantes de classe da cidade, onde foram disparados vários tiros pela polícia. Os disparos atingiram Elizabel, com apenas cinco anos na época. Seu pai foi compelido ao
exílio, deixando os filhos e a esposa desamparados no interior de Minas Gerais.
Maria Alice Albuquerque Saboya – Estudante da UFRJ, foi presa em 1970 pelo DOPS, quando foi
compelida a deixar o estágio que fazia no Centro de Reeducação de Ipanema. Após ser indiciada pela polícia, ficou sob liberdade vigiada. Refugiou-se no Chile,
Argentina e Alemanha.
Vera Lucia Carneiro Vital Brazil - Estudante, militante de movimento estudantil universitário, integrante do PCBR, foi presa e torturada no
DOI-CODI do Rio de Janeiro. Também foi indiciada em inquérito-policial militar.
Vitória Lúcia Martins Pamplona Monteiro – Psicóloga, trabalhava
com recrutamento de pessoal na Infraero quando foi presa no DOI-CODI do Rio de Janeiro. Foi torturada, indiciada em inquérito-policial militar e demitida por razões
políticas.
Maria Inêz da Silva – Era estudante quando foi obrigada a exilar-se no Chile em 1973, em função de perseguição
política. Logo após o golpe no Chile, refugiou-se na Argentina e posteriormente na Bélgica, só retornando ao Brasil em 1980 por causa da Lei de Anistia.
/>
Maria Albertina Gomes Bernaccio – Era estudante de arquitetura da USP quando começou a militar ativamente nos movimentos estudantis e na ALN. Presa em abril de 1974, foi posta
em liberdade quase um mês depois após pressões da imprensa, da Câmara dos Deputados e do então arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns.
/>
Helena Sumiko Hirata - Estudante da USP, militava no Partido Operário Comunista (POC). Também foi presa durante o XXX Congresso de Ibiúna. Indiciada em
inquérito-policial militar, exilou-se na França, onde permaneceu até a extinção da punibilidade da sentença que lhe havia condenado a quatro anos de
reclusão.
Celeste Fon - Após ter o apartamento de sua família invadido em setembro de 1969, foi presa por agentes da Operação Bandeirantes (OBAN). Nos
anos 1970, desenvolveu trabalho político ativo junto à Comissão de Familiares de Presos Políticos de São Paulo, participando em diversas atividades pela
Campanha da Anistia. Atuou também junto ao Sindicato dos Bancários.
Ana Lima Carmo Montenegro (post mortem) - Ingressou no Partido Comunista ainda na década de
1940, época em que cursava Direito na UFRJ. Fundou diversas entidades de luta femininas e participou da Frente Nacionalista Feminina entre 1950 e 1964, além de uma série de
outras atividades. Foi a primeira mulher exilada após o golpe. Morou no México e na Europa. Voltou ao Brasil com a anistia de 1979. Mais tarde atuou na Comissão de Direitos
Humanos da OAB da Bahia. Faleceu em 30 de março de 2006 aos 91 anos.
Embora nenhuma cearense tenha sido incluída nessa anistia especial em homenagem ao Dia da Mulher, as
mulheres cearenses como Rosa da Fonseca e tantas outras tiveram participação decisiva na luta contra a ditadura militar e por isso foram perseguidas e agredidas física e
moralmente. Algumas foram anistiadas em vida, outras após a morte e muitas ainda devem ser procuradas pela Comissão de Anistia. Não como pagamento pelo que passaram, mas
como um pedido oficial de desculpa e de agradecimento da nação pelo que elas lutaram.